Curupira
Guardião das matas e da caça no folclore brasileiro, de pés virados para trás e cabelos vermelhos, que desorienta quem agride a floresta.
Também conhecido como: Saci-pererê, Saci-trique, Saci-saçurá, Pererê
Moleque travesso de uma perna só, carapuça vermelha e cachimbo, que aparece em redemoinhos. A figura consolidada é do século XX, com origens tupi, africana e europeia discutidas. (pronúncia aproximada: sa-CI)
A imagem do Saci como menino negro de uma perna só, carapuça vermelha e cachimbo, que surge em redemoinhos, é relativamente recente. Ela se consolidou ao longo do século XX, em grande parte a partir do inquérito promovido por Monteiro Lobato em 1917 no jornal O Estado de S. Paulo, no qual o escritor pediu aos leitores que enviassem relatos sobre o ser. O resultado, publicado em livro em 1918, é o registro mais importante sobre a figura e revela que ela era descrita de formas muito diferentes de região para região.
Sobre as origens, as hipóteses divergem e nenhuma é definitiva. Há quem aponte raízes tupis-guaranis, em seres como o Yasy Yateré do Paraguai e do nordeste da Argentina, descrito de modo diferente; quem veja influência africana, pela imagem do menino negro; e quem lembre duendes e trasgos portugueses. Câmara Cascudo trata o Saci como produto de uma mistura. Em vez de escolher uma origem, o mais prudente é ver o Saci como figura formada por vários fios.
O Saci popular tem uma perna só, usa carapuça vermelha, fuma cachimbo e se desloca saltando ou girando em redemoinhos. Muitas versões afirmam que o poder está na carapuça, e que quem a toma o controla. Outras versões dão-lhe duas pernas, pele diferente, ou o descrevem como pássaro. O Saci descrito nos relatos do inquérito de 1917 era mais variado do que a imagem que hoje vemos em livros infantis.
Nos relatos, o Saci é travesso e malicioso. Esconde objetos, azeda o leite, queima o feijão, afugenta o gado, trança as crinas dos cavalos à noite, apaga fogueiras e desvia viajantes. Raramente mata; sua marca é o incômodo e o susto. Diz-se que se pode apanhá-lo atirando uma peneira ao redemoinho em que se desloca, e que, preso numa garrafa, ele obedece a quem tomar sua carapuça.
Os relatos coletados também falam do canto de um pássaro, chamado de saci em partes do país, cujo assobio é associado à figura, o que mostra um vínculo entre ave e ser mítico em algumas regiões. Há ainda histórias em que o Saci é amigo de crianças, o que reflete o papel que a literatura infantil lhe deu.
O Saci personifica o acaso doméstico, as pequenas perdas e desordens que parecem ter dono, e lhes dá uma explicação bem-humorada. Historiadores e folcloristas também notam que, pela imagem do menino negro, ele guarda ecos de relações de poder da sociedade escravista, mas essa leitura é interpretativa e debatida. Sua perna única já foi comparada a figuras de uma perna só de mitos de outras regiões do mundo, comparação que não prova parentesco.
O principal documento é o inquérito de Lobato: O Saci-Pererê: resultado de um inquérito (São Paulo, 1918), que reúne cartas de leitores de várias regiões. Antes dele, a figura aparece em registros esparsos, mas não é documentada com a mesma riqueza. Câmara Cascudo a descreve no Dicionário do Folclore Brasileiro (1954) e na Geografia dos Mitos Brasileiros (1947), com as variantes regionais. O material mais antigo é pouco, e boa parte do que se sabe vem do século XX.
Folcloristas registram subtipos regionais, diferenciados por traços como cor da pele ou dos olhos e pelo nome. A classificação varia conforme o autor e a região.
No Paraguai e na Argentina, o Yasy Yateré é descrito, em muitas versões, como menino louro que atrai crianças. É uma figura parente, não idêntica.
Uma ave de canto lamentoso recebe o nome de saci em alguns lugares, e o assobio dela é ligado ao ser do folclore.
O Saci foi alvo de uma campanha cultural que o opôs ao Halloween: o Dia do Saci, em 31 de outubro, é celebrado por iniciativas e leis locais como valorização do folclore brasileiro. Estudos modernos discutem o papel de Lobato e de outros intelectuais na criação da imagem padronizada, bem como as relações entre o personagem e a história racial do país. São debates contemporâneos e não parte da tradição de origem.
O Saci é personagem constante da obra infantil de Monteiro Lobato, incluindo O Saci (1921) e o Sítio do Picapau Amarelo, adaptado para a televisão. Ziraldo criou a Turma do Pererê, revista em quadrinhos da virada dos anos 1950 para os 1960. A figura aparece também em Cidade Invisível (Netflix, 2021). Tudo isso é representação popular que ajudou a fixar a imagem atual.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Guardião das matas e da caça no folclore brasileiro, de pés virados para trás e cabelos vermelhos, que desorienta quem agride a floresta.
Serpente de fogo do folclore brasileiro, de origem tupi, ligada à luz que corre pelos campos à noite e, em muitas versões, guardiã das matas contra quem as incendeia.
Mulher-sereia dos rios brasileiros, cujo canto atrai homens para o fundo das águas. A Iara que conhecemos é em boa parte uma construção literária do século XIX.
Espírito doméstico das Terras Baixas escocesas e do norte da Inglaterra que realiza trabalhos à noite em troca de comida simples e vai embora se for ofendido.
Ser travesso do folclore coreano, nascido muitas vezes de objetos velhos. Gosta de lutas e brincadeiras, prega peças e, com sorte, recompensa os humildes.
Mais da tradição Brasileira (tupi e popular): Boitatá, Curupira, Iara.
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