Tengu
Seres das montanhas japonesas, os tengu ora aparecem como demônios orgulhosos que perturbam o budismo, ora como guardiões dos montes e mestres de artes marciais.
Também conhecido como: Espírito das árvores japonês, 木霊, 木魅
Presença que habita árvores antigas na tradição japonesa e que também dá nome ao eco das montanhas. Derrubar a árvore errada, dizem as lendas, traz consequências. (pronúncia aproximada: ko-da-ma)
Kodama é o nome japonês dado ao espírito, ou à presença, que habita uma árvore. A palavra se escreve com ideogramas que combinam “árvore” e “alma” ou “espírito” (木霊), e a mesma palavra também designa o eco, a voz que volta da montanha. Para muitos estudiosos a coincidência não é acidental: o som que responde do meio da mata foi entendido, por muito tempo, como a voz de algo que vive nela. Em registro mais literário, kodama segue em uso para dizer eco.
Nada disso forma uma doutrina fechada. No xintoísmo, árvores muito antigas podem ser tratadas como morada de kami, e algumas recebem o shimenawa, a corda de palha trançada que marca um espaço como sagrado. A ideia de que uma árvore velha guarda uma presença, e de que derrubá-la exige cuidado, pertence a esse campo de crenças. O kodama costuma ser descrito como a manifestação mais pessoal dessa presença: menos um deus de santuário do que um habitante do próprio tronco.
As fontes tradicionais dizem pouco sobre o aspecto do kodama, e a vagueza faz parte do tema: em muitos relatos ele é apenas uma voz, um ruído, uma sensação de ser observado entre as árvores. Quando recebe forma, ela vem da tradição ilustrada. Na coleção de monstros Gazu Hyakki Yagyō, de Toriyama Sekien (1776), a página dedicada ao kodama (木魅) mostra um homem e uma mulher idosos junto a árvores, e o texto que a acompanha diz que um espírito passa a habitar a árvore depois de cem anos. A imagem é uma das que serviram de referência para catálogos posteriores de yōkai. Os pequenos seres brancos de cabeça redonda que muita gente associa ao nome hoje vêm do cinema, não do folclore antigo.
O motivo mais constante nos relatos é o do corte. Em várias localidades japonesas contam-se histórias de árvores sagradas ou muito antigas cuja derrubada trouxe doença, acidentes ou morte a quem a ordenou, e em alguns casos se diz que a árvore sangrou ou gritou ao ser ferida. Essas narrativas aparecem em coletâneas de lendas locais e nem sempre usam a palavra kodama. O que as une é a convicção de que a árvore tem uma presença que reage, e o nome kodama funciona como etiqueta para toda essa família de crenças.
O outro fio é o do eco. Gritar numa encosta e ouvir a própria voz voltar foi lido como diálogo com um ser invisível. Algumas tradições ligam o fenômeno aos yamabiko, termo que também significa eco, e a fronteira entre yamabiko e kodama muda conforme a região e o autor: em certos catálogos são seres distintos, em outros dois nomes para uma mesma ideia. Em ambos os casos a mata é tratada como interlocutora, e quem entra nela fala com cuidado.
Para as comunidades que viviam da madeira e da montanha, a crença no kodama funcionava como freio e como linguagem. Ela atribuía um dono moral à floresta e dava razão para cerimônias antes de um corte, para a preservação de árvores de santuário e para a prudência com bosques antigos. Essa é uma leitura interpretativa, não uma explicação registrada pelos próprios narradores, mas se alinha ao costume documentado de proteger árvores veneráveis com cordas e pequenos altares.
O Kojiki (712) já fala de Kukunochi, kami das árvores, o que mostra a antiguidade da ideia de uma divindade vegetal, ainda que o texto não descreva o kodama como criatura. A palavra aparece em glossários e obras posteriores, e a imagem de yōkai foi fixada por ilustradores do período Edo, sobretudo Toriyama Sekien. Os casos de árvores que sangram ou punem vêm sobretudo de coletas de folclore local feitas nos séculos XIX e XX, um registro tardio em relação à crença que descrevem.
Em algumas regiões o kodama é sobretudo o eco, tratado como voz de um ser da mata. A relação com os yamabiko varia: ora sinônimo, ora criatura separada.
As grandes árvores de santuário, as goshinboku, são veneradas como morada de kami e raramente chamadas de kodama. É a prática religiosa de que a figura folclórica parece derivar.
Nos catálogos de yōkai do período Edo, o kodama ganha corpo humano ou quase humano, às vezes ao lado de uma árvore. A imagem é obra de artistas, não necessariamente de narradores populares.
Estudos de folclore japonês, como os de Michael Dylan Foster sobre os yōkai, mostram que a categoria é flexível e foi remodelada desde o período Edo por ilustradores, folcloristas e escritores. O kodama é um caso típico: uma crença difusa que ganhou nome e rosto ao ser catalogada. Hoje o tema é citado em discussões sobre animismo, manejo florestal e conservação de áreas rurais, em leituras ecológicas que são contemporâneas e não pertencem à tradição original.
A imagem mais conhecida fora do Japão é a de Princesa Mononoke (1997), de Hayao Miyazaki, em que pequenos espíritos brancos que giram a cabeça indicam a saúde da floresta. É criação do cineasta, inspirada na ideia de espíritos de árvores, e não corresponde a descrições antigas. Kodama também aparece como elemento de ambientação em jogos, como Nioh (2017), sempre como representação popular da figura.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Seres das montanhas japonesas, os tengu ora aparecem como demônios orgulhosos que perturbam o budismo, ora como guardiões dos montes e mestres de artes marciais.
Raposa dotada de poderes sobrenaturais no folclore japonês, a kitsune muda de forma, engana e seduz, mas também surge como mensageira da divindade Inari e esposa fiel em muitos relatos.
Senhor da floresta no folclore eslavo oriental, o leshy guarda animais e árvores, desorienta viajantes e muda de tamanho e forma conforme a ocasião.
Guardião das matas e da caça no folclore brasileiro, de pés virados para trás e cabelos vermelhos, que desorienta quem agride a floresta.
Criatura aquática do folclore japonês, o kappa tem um prato com água na cabeça, gosta de pepinos e de lutar sumô, e é acusado de afogar pessoas e animais.
Mais da tradição Japonesa: Kappa, Kitsune, Tengu, Yuki-onna.
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