Huli jing
Raposa que, pela idade ou pela disciplina, ganha poderes e forma humana. Na literatura chinesa ela é amante, amiga, ameaça ou presságio, conforme a história.
Também conhecido como: Raposa-espírito japonesa, 狐
Raposa dotada de poderes sobrenaturais no folclore japonês, a kitsune muda de forma, engana e seduz, mas também surge como mensageira da divindade Inari e esposa fiel em muitos relatos.
A raposa ocupa lugar de destaque no imaginário japonês, e a ideia de que ela pode assumir forma humana tem raízes em tradições chinesas, como as histórias de raposas-espírito, que chegaram ao Japão com a cultura continental. A kitsune, porém, desenvolveu características locais. A palavra aparece em textos antigos, e um dos primeiros relatos conhecidos é o do Nihon Ryōiki, compilado pelo monge Kyōkai (tradicionalmente situado por volta de 822), onde uma raposa se casa com um homem da província de Mino.
Ao longo dos séculos, a imagem se diversificou. No contexto agrário, a raposa era associada ao arroz, e com isso passou a ser vinculada a Inari, divindade xintoísta do cereal, da prosperidade e do comércio. Em contos medievais e do período Edo, a kitsune aparece de modo mais variado, ora como trapaceira, ora como figura de lealdade. O que se descreve como kitsune, portanto, abrange tanto animais comuns de crenças populares quanto raposas elevadas ao estatuto de mensageiras divinas.
Em forma animal, a kitsune é uma raposa comum, mas costuma ter pelagem branca, dourada ou muito brilhante, e se diz que o número de caudas aumenta com a idade e o poder. Na forma humana, assume em geral a de uma mulher bela ou de um jovem, e seu disfarce pode trair-se por pequenos detalhes: a sombra em forma de raposa, a cauda que escapa sob o quimono, o medo de cães. Algumas lendas falam de uma pérola ou joia que a raposa carrega e que guarda parte de seu poder.
Entre as histórias mais conhecidas estão as de esposas-raposa. Em uma delas, a raposa se casa com um homem, tem filhos e vive em paz até ser descoberta; então parte, mas deixa saudades. Um exemplo famoso é a lenda de Kuzunoha, mãe do onmyōji Abe no Seimei, popularizada no teatro (como na peça de bonecos Ashiya Dōman ōuchi kagami, de 1734), em que a raposa deixa um poema de despedida para o marido. Ao lado delas há relatos de raposas que enganam monges, comerciantes e samurais, fazendo-os comer lama como se fosse comida.
A kitsune também aparece como figura perigosa. A lenda de Tamamo-no-Mae, difundida no período Muromachi e no teatro nō, conta de uma cortesã que seria uma raposa de nove caudas, a qual teria enfeitiçado um imperador e, desmascarada, foi morta e transformada na Pedra Assassina (Sesshō-seki). Há ainda a possessão por raposa, kitsune-tsuki, atribuída em épocas passadas a pessoas com comportamento tido como estranho, crença que causou estigma e discriminação a famílias acusadas de abrigar raposas.
A ambivalência da kitsune reflete a posição da raposa na vida rural: animal que se aproxima das aldeias, caça roedores que ameaçam as colheitas, mas também ataca aves domésticas. Por isso foi lida como mensageira de Inari e, ao mesmo tempo, como criatura enganadora. Interpretações modernas veem nas histórias de esposas-raposa reflexões sobre fronteiras entre humano e não humano, e sobre o lugar da mulher em casamentos arranjados. São leituras interpretativas, não explicações das lendas pelas comunidades.
Além do Nihon Ryōiki, as raposas aparecem na Konjaku Monogatarishū (século XII) e em contos do período Edo, como coletâneas de histórias estranhas e peças de teatro kabuki e bunraku. Em fontes mais recentes, folcloristas japoneses, como Yanagita Kunio, registraram crenças locais sobre raposas em aldeias do país. É preciso distinguir os textos literários, elaborados por letrados, dos relatos orais coletados, que revelam tradições mais variáveis.
A tradição distingue, em alguns textos, raposas ligadas a Inari, de caráter sagrado, e raposas selvagens ou nogitsune, tidas como mais malévolas.
Em várias regiões, chuva com sol era chamada de casamento da raposa, e se dizia que um cortejo de raposas passava, o que aparece em festivais e no cinema.
Relatos falam em raposas de uma até nove caudas. A ideia de que cada cauda marca o poder é recorrente, mas não universal.
Pesquisadores como Karen Smyers, em estudo sobre o culto de Inari, mostram que as raposas de pedra dos santuários são mensageiras, não a divindade em si. O folclorista Michael Dylan Foster discute o papel das raposas na cultura de yōkai e como a imagem foi reformulada na modernidade. A oferenda de aburaage (tofu frito), hoje associada às raposas, é vista por alguns autores como costume posterior às crenças mais antigas, embora sua datação seja incerta.
A kitsune é onipresente em mangás, anime e jogos. Em Naruto, a Raposa de Nove Caudas é um ser de enorme poder selado no protagonista, e a franquia Pokémon inclui criaturas inspiradas em raposas, como Vulpix e Ninetales. Essas versões reimaginam o motivo da raposa de nove caudas, muito ligado à lenda de Tamamo-no-Mae, mas costumam descartar o contexto religioso e o conteúdo moral das histórias tradicionais.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Raposa que, pela idade ou pela disciplina, ganha poderes e forma humana. Na literatura chinesa ela é amante, amiga, ameaça ou presságio, conforme a história.
Raposa de nove caudas dos contos coreanos, que assume forma de mulher bela para enganar e, em muitas versões, devorar homens. Algumas histórias lhe dão final trágico.
Seres das montanhas japonesas, os tengu ora aparecem como demônios orgulhosos que perturbam o budismo, ora como guardiões dos montes e mestres de artes marciais.
Presença que habita árvores antigas na tradição japonesa e que também dá nome ao eco das montanhas. Derrubar a árvore errada, dizem as lendas, traz consequências.
Espírito feminino das nevascas no folclore japonês, a yuki-onna surge pálida em noites de tempestade e congela viajantes, embora algumas versões a mostrem poupando ou amando um homem.
Mais da tradição Japonesa: Kappa, Kodama, Tengu, Yuki-onna.
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