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Espíritos e entidades · Mesoamericana (nahua e asteca)

Quetzalcoatl

Também conhecido como: Serpente Emplumada, Ehecatl-Quetzalcoatl, Topiltzin Quetzalcoatl

Divindade nahua da Mesoamérica, a Serpente Emplumada, ligada ao vento, à criação dos humanos e ao saber, e também nome de um sacerdote-rei lendário de Tollan. (pronúncia aproximada: quet-sal-CÓ-atl)

Tradição folclórica

Origem e contexto

Quetzalcoatl é uma divindade da religião nahua, e não uma criatura de folclore. Seu nome combina quetzalli, a pena verde e preciosa do quetzal, e coatl, serpente. A imagem de uma serpente coberta de penas é muito anterior aos astecas: aparece na arquitetura de Teotihuacan, nos primeiros séculos da era comum, e em outras culturas da região. Em tradições posteriores, o culto à Serpente Emplumada se espalhou e teve centros importantes, como Cholula.

Nas fontes mexicas, Quetzalcoatl assume vários aspectos: como Ehecatl, é o vento que abre o caminho às chuvas; ligado a Vênus, relaciona-se à estrela da manhã; e é patrono dos sacerdotes. Em narrativas de criação, ele desce ao Mictlan, o reino dos mortos (em algumas versões acompanhado de Xolotl), para recuperar os ossos de humanidades anteriores e, com seu próprio sangue, dar vida aos humanos da era atual. Em uma tradição, ele também revela o milho.

Aparência tradicional

Nos códices e esculturas, a Serpente Emplumada é uma cobra coberta de plumas de quetzal, com cabeça de feições detalhadas. Como Ehecatl, aparece como figura humana com uma máscara em forma de bico, associada ao vento. Já o sacerdote-rei Topiltzin é descrito em algumas fontes com vestes e adornos específicos, mas essas descrições variam e não permitem imaginar um rosto fixo.

Comportamento nas lendas

A narrativa mais conhecida é a de Topiltzin Quetzalcoatl, governante e sacerdote de Tollan. Os textos nahuas do século XVI contam que ele foi enganado pelo deus rival Tezcatlipoca, que o fez se embriagar e quebrar normas, e que então deixou a cidade rumo ao leste. As versões divergem sobre o destino: ele teria partido sobre uma jangada de serpentes, ou se queimado e virado a estrela da manhã. Em algumas, ele rejeita sacrifícios humanos e oferece serpentes, aves e borboletas.

Essa história mistura mito, memória de uma cidade e disputa política entre grupos. Os próprios historiadores debatem se houve uma pessoa por trás do relato de Tollan e se o personagem de Topiltzin se confunde com o deus. Por isso, os especialistas tratam o sacerdote-rei e a divindade como camadas distintas de uma mesma tradição.

Simbolismo

A união entre serpente, ligada à terra, e pluma, ligada ao céu, é lida como imagem do vínculo entre os dois planos, e o simbolismo do vento e da estrela da manhã reforça a ideia de movimento e de renovação. O mito de Tollan costuma ser interpretado como explicação de ciclos de poder e da superioridade do saber sacerdotal. São leituras de especialistas, e as fontes não as formulam dessa maneira.

Relatos históricos e fontes folclóricas

Os textos mais importantes são de autoria indígena ou colhidos de informantes nahuas no século XVI: o Códice Florentino, de Bernardino de Sahagún, os Anais de Cuauhtitlan e a Leyenda de los Soles, além da Historia de los mexicanos por sus pinturas. Todos foram escritos depois da Conquista, sob influência missionária, o que exige cautela. As imagens de Teotihuacan, bem anteriores, ajudam a mostrar que a Serpente Emplumada tem uma história longa, mas não explicam seu significado exato.

Variações regionais

Kukulkan e Q'uq'umatz

Entre os maias, divindades de nome equivalente ao de Quetzalcoatl, Kukulkan em Yucatán e Q'uq'umatz entre os quichés, aparecem em contextos próprios, sem identidade perfeita com o deus nahua.

Ehecatl

Sob a forma de Ehecatl, deus do vento, Quetzalcoatl tinha templos circulares. É um aspecto reconhecido, mas as relações exatas entre os nomes são discutidas.

Topiltzin de Tollan

O governante de Tollan é descrito em fontes distintas com finais diferentes, o que mostra que há mais de uma tradição por trás do nome.

Interpretações modernas

Leituras de hoje

Um mito moderno, hoje contestado por historiadores como Matthew Restall e outros, diz que Montezuma confundiu Hernán Cortés com Quetzalcoatl regressando. A ideia aparece em escritos coloniais posteriores e não nas fontes mais próximas dos fatos, e é vista como construção pós-conquista. O nome também foi apropriado por movimentos religiosos e políticos, e a imagem do deus foi muito usada na identidade nacional mexicana.

Cultura popular

Representações contemporâneas

O nome Quetzalcoatl aparece no filme de terror Q: The Winged Serpent (1982) e em jogos, quadrinhos e séries que o usam como monstro ou entidade misteriosa. Em 1975, o pterossauro gigante Quetzalcoatlus recebeu o nome em referência à Serpente Emplumada. São usos contemporâneos, muitas vezes sem relação com a religião nahua.

Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.

Criaturas relacionadas

Indiana e do Sudeste Asiático

Naga

Seres-serpente das tradições hindu e budista, guardiões de águas e tesouros. Podem proteger ou punir, e dão origem a mitos de fundação no Sudeste Asiático.

Criaturas mágicas
Chinesa

Long, o dragão chinês

Criatura composta ligada à chuva, às águas e ao poder legítimo. O lóng chinês não é o monstro a ser vencido do Ocidente, e sim uma força que rege as águas.

Criaturas mágicas
Aborígene australiana

Serpente Arco-Íris

Nome genérico dado por antropólogos a seres-serpente ligados à água, à chuva e à criação da paisagem em muitas tradições dos povos aborígenes australianos, cada qual com nome e histórias próprios.

Espíritos e entidades
Brasileira (tupi e popular)

Boitatá

Serpente de fogo do folclore brasileiro, de origem tupi, ligada à luz que corre pelos campos à noite e, em muitas versões, guardiã das matas contra quem as incendeia.

Monstros e seres lendários

Compare com outras culturas

Para ler mais

  • Sahagún, Bernardino de. Historia general de las cosas de la Nueva España (Códice Florentino), século XVI.
  • Carrasco, Davíd. Quetzalcoatl and the Irony of Empire. Chicago: University of Chicago Press, 1982.
  • Restall, Matthew. Seven Myths of the Spanish Conquest. Oxford: Oxford University Press, 2003.
  • León-Portilla, Miguel. La filosofía náhuatl estudiada en sus fuentes. México: UNAM, 1956.

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