Dragão europeu
Serpente monstruosa das tradições europeias, guardiã de tesouros, rios e cidades, vencida por heróis e santos; a imagem do dragão que cospe fogo se consolida na Idade Média.
Também conhecido como: Lóng, 龍, 龙, Shenlong (dragão espiritual)
Criatura composta ligada à chuva, às águas e ao poder legítimo. O lóng chinês não é o monstro a ser vencido do Ocidente, e sim uma força que rege as águas. (pronúncia aproximada: lóng)
O lóng (龍, em escrita simplificada 龙) é uma criatura composta associada à água, à chuva, às nuvens e ao poder legítimo. A palavra portuguesa “dragão” vem da tradição mediterrânea e carrega a bagagem do monstro a ser derrotado; o lóng pertence a outro universo. Costuma ser uma força que rege as águas, para o bem, com chuvas na estação certa, ou para o mal, com enchentes e secas quando está contrariado. Por isso muitos autores observam que “dragão chinês” é uma tradução imperfeita.
Objetos neolíticos de forma serpentina ou composta, como os jades da cultura Hongshan, no nordeste da China, e um mosaico de conchas em sepultura de Xishuipo, em Puyang, são com frequência apresentados como antecessores do lóng. A ligação é interpretação de arqueólogos, não consenso fechado, pois nada nesses objetos traz nome ou texto. O caractere 龍 já aparece nos ossos oraculares da dinastia Shang, e a criatura é mencionada em clássicos como o Yijing e o Shanhaijing.
O lóng é uma criatura de corpo longo e sinuoso, em geral sem asas, que voa pela própria natureza. Uma lista de “nove semelhanças”, atribuída ao autor Han Wang Fu e citada em obras posteriores, compõe o animal de partes de outros: cabeça de camelo, chifres de cervo, pescoço de serpente, escamas de carpa, garras de águia, patas de tigre, entre outras. A pérola flamejante que persegue ou segura é motivo recorrente na arte. O número de garras variava com o contexto, e em períodos imperiais o dragão de cinco garras foi reservado ao imperador.
Na religião popular e nas tradições taoista e budista, os dragões são administradores das águas. Os Reis-Dragões dos Quatro Mares (Longwang) recebiam orações e oferendas em templos, sobretudo em tempos de seca, e autoridades locais podiam ser incumbidas de rezar a eles. Estudos apontam que a figura do Rei-Dragão em sua forma popular incorporou traços do nāga budista indiano, o que mostra como o lóng absorveu influências ao longo dos séculos.
Nos mitos, o dragão alado Yinglong aparece no Shanhaijing ao lado do Imperador Amarelo na guerra contra Chiyou. Segundo o Shiji, de Sima Qian, o próprio Imperador Amarelo teria subido aos céus montado em um dragão ao fim da vida. Nessas histórias o dragão é auxiliar, montaria e emblema de investidura, e quase nunca um inimigo a abater.
O dragão representa fertilidade das águas, vigor e autoridade. No Yijing, o hexagrama Qian usa imagens de dragão, oculto, aparecendo e voando, para descrever estágios de uma ascensão. Na China imperial ele se tornou emblema do soberano, o “filho do céu”, e a regra do dragão de cinco garras reservado ao trono reforçou essa associação. Que os chineses sejam “descendentes do dragão” é fórmula moderna, de uso nacionalista e cultural, não uma crença antiga.
Os registros textuais vão do Yijing e do Shanhaijing a relatos históricos como o Shiji. Rituais de pedido de chuva com figuras de dragão são descritos em textos da era Han, entre eles o Chunqiu fanlu, atribuído a Dong Zhongshu. O estudo clássico de M. W. de Visser, The Dragon in China and Japan (1913), reúne referências antigas. Muitas imagens de dragão em templos e pinturas hoje conhecidas pertencem a períodos Ming e Qing, bem posteriores aos primeiros textos.
Na religião popular, quatro reis governam os mares dos pontos cardeais e recebem culto por chuva e proteção. A organização em corte celestial combina influências taoistas e budistas.
Uma tradição tardia, popular nas dinastias Ming e Qing, fala de nove filhos do dragão, cada um com uma função decorativa em sinos, pontes e telhados. Os nomes e a lista variam conforme a fonte.
O ryū japonês, o yong coreano e o rồng vietnamita têm origem em intercâmbios com a China e traços próprios, como regras de iconografia e relação com divindades locais.
Há décadas discute-se como traduzir lóng. Alguns autores de língua chinesa propõem transliterar como “loong” para separá-lo do dragon ocidental. Pesquisadores também debatem a origem do animal, com hipóteses que passam por serpentes, crocodilos, relâmpagos e constelações. Nenhuma dessas hipóteses é aceita de forma unânime e todas são leituras modernas, não explicações da tradição.
O dragão Mushu, de Mulan (Disney, 1998), recorre à figura de dragão-guardião chinês, mas é criação cômica do estúdio. Shenlong, do mangá Dragon Ball, de Akira Toriyama, deve o nome ao lóng (神龍, “dragão divino”) e concede desejos, função que não pertence à tradição chinesa. São apropriações de entretenimento.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Serpente monstruosa das tradições europeias, guardiã de tesouros, rios e cidades, vencida por heróis e santos; a imagem do dragão que cospe fogo se consolida na Idade Média.
Seres-serpente das tradições hindu e budista, guardiões de águas e tesouros. Podem proteger ou punir, e dão origem a mitos de fundação no Sudeste Asiático.
Seres das tradições māori ligados a rios, mares e cavernas, às vezes guardiões de um povo e de um lugar, às vezes ameaças, e ainda presentes na cultura contemporânea de Aotearoa.
Nome genérico dado por antropólogos a seres-serpente ligados à água, à chuva e à criação da paisagem em muitas tradições dos povos aborígenes australianos, cada qual com nome e histórias próprios.
Mais da tradição Chinesa: Huli jing.
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