Selkie
Seres do mar que, nas tradições das ilhas do norte, vivem como focas e ganham forma humana ao tirar a pele, num ciclo de amor, captura e perda.
Também conhecido como: Mélusine, Melusine, Mère Lusine
Mulher-fada da França medieval que casa com um nobre sob a condição de que ele nunca a veja aos sábados. Quando a promessa se rompe, revela a metade serpente e parte. (pronúncia aproximada: me-lu-zí-na)
Melusina é uma figura da literatura francesa medieval, fixada nos romances de Jean d’Arras, de 1393, e de Coudrette, de cerca de 1401. Os dois textos foram escritos para famílias nobres que reivindicavam a descendência dos Lusignan, senhores de Poitou: o primeiro para o duque Jean de Berry, o segundo para os senhores de Parthenay. Ou seja, a lenda nasceu como narrativa dinástica, ligada ao poder, e só depois circulou como conto de fada.
A história mostra traços de motivos folclóricos mais antigos, como a esposa sobrenatural sob tabu. Gervásio de Tilbury, no começo do século XIII, narra uma história semelhante, sobre uma mulher que se revela serpente. Por isso há quem veja em Melusina uma elaboração literária de um motivo já conhecido, e não uma tradição oral pura. O vínculo com Lusignan e com uma figura aquática, de fonte ou rio, é a parte original dos romances.
No romance de Jean d’Arras, Melusina é uma mulher de grande beleza e, aos sábados, a partir da cintura, torna-se serpente, em consequência de uma maldição imposta por sua mãe, a fada Pressine, ao pai de ambas, o rei Elinas. Nessa forma, banha-se em segredo. Mais tarde, na iluminura e na gravura, o corpo costuma ser desenhado com cauda de serpente ou de peixe, e há representações com asas e com duas caudas, o que afasta a imagem do texto original.
Segundo o romance, Raymondin, sobrinho do conde de Poitiers, encontra Melusina numa fonte, na floresta, e casa com ela com a condição de nunca procurá-la aos sábados. Ela o enriquece e funda castelos e cidades, entre eles Lusignan, e dá-lhe filhos, muitos marcados por traços estranhos, como o filho Geoffroy à la Grand’Dent, o do grande dente. Tudo vai bem até que o ciúme, atiçado por boatos, faz Raymondin espiar o banho dela e vê-la como serpente.
A ruptura se completa quando, num momento de desgosto por um dos filhos, ele a chama de víbora diante de todos. Melusina foge, em forma de dragão ou de serpente alada, e sofre por deixar a família. Em versões do romance, volta à noite para amamentar os filhos mais novos e, pela tradição ligada à linhagem, aparece gritando sobre o castelo de Lusignan quando uma morte se aproxima ou o domínio vai passar a outras mãos.
Pesquisadores veem em Melusina a figura da mãe fundadora, cuja origem extraordinária garante o prestígio da casa. Jacques Le Goff, no artigo clássico escrito com Emmanuel Le Roy Ladurie, em 1971, ligou a lenda ao desbravamento de terras e à construção de uma paisagem senhorial. Laurence Harf-Lancner estudou o motivo da fada-esposa e a ambiguidade entre bênção e ameaça. São leituras acadêmicas de um texto medieval que ele mesmo não explica.
As fontes principais são Jean d’Arras, composto em prosa em 1393, e Coudrette, em versos, por volta de 1401. A versão alemã em prosa de Thüring von Ringoltingen, de 1456, teve grande difusão em livro impresso, e a história circulou em várias línguas na Europa. Narrativas anteriores, como as de Gervásio de Tilbury e Walter Map, contêm motivos aparentados. A tradição oral de Poitou, que fala de uma “mère Lusine” construtora de castelos, é conhecida por registros tardios, e não é fácil separar o que é folclore autônomo do que veio dos livros.
Os dois autores trabalham para famílias diferentes e destacam aspectos diversos da linhagem. As duas versões concordam no esquema geral, mas divergem em episódios e em detalhes dos filhos e do destino final da heroína.
Em Luxemburgo, uma tradição tardia conta que o conde Sigfrido, fundador da cidade, casou-se com uma fada Melusina. Essa história é bem posterior aos romances medievais e usa o mesmo motivo.
A imagem da mulher com cauda dupla aparece em heráldica e escultura medievais. Há debate sobre se essas figuras representam Melusina ou a sereia comum, e muitos casos não podem ser atribuídos com segurança.
No século XX, a Melusina medieval foi redescoberta por historiadores, medievalistas e estudiosos de literatura. O livro organizado por Donald Maddox e Sara Sturm-Maddox, Melusine of Lusignan: Founding Fiction in Late Medieval France (1996), reuniu leituras sobre sua dimensão política e simbólica. Em seu trabalho sobre as fadas medievais, Harf-Lancner também a compara a Morgana, a fada artúrica. São abordagens acadêmicas, que tratam o texto como literatura.
O compositor Felix Mendelssohn escreveu a abertura Das Märchen von der schönen Melusine (O Conto da Bela Melusina), op. 32, de 1833. Também circula a afirmação de que a sereia de duas caudas do logotipo da rede Starbucks seria uma Melusina, o que é uma associação popular e não uma declaração oficial da empresa. Em cada caso, é uma retomada moderna e sem vínculo com a tradição oral.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Seres do mar que, nas tradições das ilhas do norte, vivem como focas e ganham forma humana ao tirar a pele, num ciclo de amor, captura e perda.
Figura feminina da tradição gaélica cujo lamento, ouvido à noite, anuncia a morte de alguém de uma família. Nas lendas, não mata: avisa e chora.
Seres-serpente das tradições hindu e budista, guardiões de águas e tesouros. Podem proteger ou punir, e dão origem a mitos de fundação no Sudeste Asiático.
Nas crenças eslavas orientais, a rusalka é o espírito de uma jovem morta de modo violento ou antes do tempo, associada a rios, lagos e campos, que volta à terra na semana das rusálias.
Mulher-sereia dos rios brasileiros, cujo canto atrai homens para o fundo das águas. A Iara que conhecemos é em boa parte uma construção literária do século XIX.
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