Kitsune
Raposa dotada de poderes sobrenaturais no folclore japonês, a kitsune muda de forma, engana e seduz, mas também surge como mensageira da divindade Inari e esposa fiel em muitos relatos.
Também conhecido como: Espírito-raposa chinês, Hu xian, 狐狸精, 狐仙, Raposa de nove caudas (jiuwei hu, 九尾狐)
Raposa que, pela idade ou pela disciplina, ganha poderes e forma humana. Na literatura chinesa ela é amante, amiga, ameaça ou presságio, conforme a história. (pronúncia aproximada: hu-li djing)
Huli jing (狐狸精) é o termo chinês para a raposa que, com o tempo ou com disciplina, adquire poderes sobrenaturais e a capacidade de assumir forma humana. Em chinês coloquial a expressão também é usada como insulto contra mulheres acusadas de seduzir, uso que mostra o quanto a imagem da raposa-mulher se fixou no imaginário. Fora dessa fala, a tradição é bem mais variada: a raposa pode ser presságio, amante, amiga, trapaceira, devoradora de homens ou entidade que recebe oferendas.
Os registros mais antigos mostram a raposa ainda longe do estereótipo da sedutora. O Shanhaijing (Clássico das Montanhas e dos Mares) descreve, na região de Qingqiu, um animal com forma de raposa e nove caudas, de voz semelhante à de um bebê, que come gente; segundo o mesmo trecho, comer sua carne protegeria de certos males. Em relevos de tumbas da dinastia Han a raposa de nove caudas aparece junto à Rainha-Mãe do Ocidente, em contexto de bom augúrio. O sentido de ameaça erótica se acentua em textos posteriores.
Em forma animal, o número de caudas varia; a raposa de nove caudas é a mais célebre, mas não é regra em todos os contos. A forma humana costuma ser a de uma mulher elegante ou a de um jovem erudito de maneiras refinadas. As histórias oferecem sinais que podem traí-la: uma cauda que escapa sob a roupa, o pavor de cães, uma sombra ou reflexo que mostra o animal. Esses indícios mudam de conto para conto e nenhum é universal.
Na novela Tang Renshi zhuan (A história da senhorita Ren), atribuída a Shen Jiji e do final do século VIII, uma mulher belíssima revela-se raposa. Apaixona-se por um homem, mas morre quando cães de caça a perseguem, e a narrativa a trata com evidente simpatia. O exemplo vale como contrapeso: nem toda raposa dos contos é vilã, e muitas são mais fiéis do que os humanos que as cercam.
Nos Liaozhai zhiyi (Contos estranhos de um estúdio chinês), de Pu Songling, compilados entre o fim do século XVII e o início do XVIII, as raposas formam um elenco numeroso: esposas devotadas, amigas sagazes, seres irônicos, algumas vezes perigosos. Já no romance Ming Fengshen yanyi (século XVI), um espírito-raposa toma o corpo de Daji, consorte do último rei Shang, e a ruína da corte lhe é atribuída. Trata-se de enredo literário: Daji aparece na tradição historiográfica como consorte, mas a raposa é invenção narrativa.
A raposa ocupa um limiar: nem plenamente doméstica, nem inteiramente selvagem, capaz de aprender o que os humanos sabem e de imitá-los. Estudiosos como Rania Huntington leem a raposa-humana como um modo de a literatura explorar o outro e o fora de lugar, incluindo amores proibidos e tensões sociais. É interpretação acadêmica; nos contos, o que se vê são histórias de afeto, desconfiança, castigo e gratidão.
O Shanhaijing e os relevos Han são os testemunhos antigos. A partir da dinastia Tang, histórias de raposas se multiplicam nas coletâneas de relatos do estranho (zhiguai), como o vasto Taiping guangji, compilado no século X, que dedica várias seções a elas. No século XVIII, Pu Songling e depois Ji Yun, em Yuewei caotang biji, registram contos e opiniões sobre raposas. O culto popular ao hu xian, em casas e templos do norte da China, é atestado principalmente em fontes tardias do período imperial e do início do século XX.
Passa de besta devoradora no Shanhaijing a presságio auspicioso na arte Han e, mais tarde, a figura de poder maior na literatura. O nove, em chinês, evoca plenitude.
Em partes do norte da China, famílias mantinham altares domésticos a raposas para pedir proteção e prosperidade, tratando-as com cautela para não ofendê-las.
Nos contos Qing, a raposa costuma se apresentar como letrado refinado e se envolve com estudantes e funcionários, em histórias de amizade e amor.
A raposa que se transforma circula no leste da Ásia. Kumiho, na Coreia, e kitsune, no Japão, partilham traços com ela, mas têm tradições próprias.
Kang Xiaofei, em The Cult of the Fox, analisa o culto às raposas na China imperial tardia e moderna como religiosidade popular de proteção doméstica, ligada a temores e esperanças de comunidades concretas. Outros estudos criticam a redução de todas as raposas à imagem da sedutora, observando que o rótulo huli jing serve para responsabilizar mulheres por desordens sociais. Essas são análises contemporâneas e não explicações dadas pelas fontes antigas.
Daji é personagem recorrente em adaptações de Fengshen yanyi para televisão, quadrinhos e jogos. A webcomic e animação Fox Spirit Matchmaker (Hu yao xiao hongniang) e a campeã Ahri, de League of Legends, também se inspiram em espíritos-raposa do leste da Ásia. São representações populares, que misturam tradições chinesas, coreanas e japonesas.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Raposa dotada de poderes sobrenaturais no folclore japonês, a kitsune muda de forma, engana e seduz, mas também surge como mensageira da divindade Inari e esposa fiel em muitos relatos.
Raposa de nove caudas dos contos coreanos, que assume forma de mulher bela para enganar e, em muitas versões, devorar homens. Algumas histórias lhe dão final trágico.
Seres do mar que, nas tradições das ilhas do norte, vivem como focas e ganham forma humana ao tirar a pele, num ciclo de amor, captura e perda.
Mulher-fada da França medieval que casa com um nobre sob a condição de que ele nunca a veja aos sábados. Quando a promessa se rompe, revela a metade serpente e parte.
Mais da tradição Chinesa: Long, o dragão chinês.
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