Aos sí
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Também conhecido como: Bean sí, Bean sídhe, Mulher dos montículos
Figura feminina da tradição gaélica cujo lamento, ouvido à noite, anuncia a morte de alguém de uma família. Nas lendas, não mata: avisa e chora. (pronúncia aproximada: banchi)
A banshee pertence à tradição gaélica da Irlanda e, em formas próximas, da Escócia. O nome vem do irlandês bean sí, “mulher do sídh”, e a coloca entre os aos sí, o povo sobrenatural dos montículos. Mas ela se distingue dos demais: não rapta nem engana, e sua função na tradição é a de mensageira da morte. Quem a ouve não corre perigo por ela; o perigo é a morte que ela anuncia.
Segundo a tradição, a banshee acompanha certas famílias, em especial as de nome gaélico antigo, com os prefixos Ó ou Mac. É comum a afirmação de que cinco grandes famílias irlandesas tinham banshee própria, mas essa lista é uma formulação tardia e popular. Estudos como o de Patricia Lysaght mostram que as crenças reais eram mais amplas e variavam por região, e que a mesma figura podia ser ligada a famílias comuns, sem linhagem nobre.
Raramente é vista; com mais frequência é apenas ouvida. Os relatos descrevem uma voz que lamenta, geme ou grita, ora lembrando choro humano, ora o de uma ave ou de um animal. Quando aparece, assume formas diferentes: uma velha de cabelos longos e soltos e capa cinza, uma jovem de aspecto belo e triste, ou uma mulher de olhos avermelhados de tanto chorar. Em vários relatos penteia os cabelos, e daí vem o aviso de que não se deve apanhar um pente encontrado ao acaso.
Nos relatos, a banshee surge pouco antes de uma morte, geralmente de noite, junto à casa ou perto da janela da pessoa que vai morrer. O lamento está ligado à prática do caoineadh, o canto fúnebre feito por mulheres nos velórios irlandeses, e a tradição às vezes a descreve como uma carpideira sobrenatural que chora pela família quando ainda não há quem possa fazê-lo. Quando morria alguém de uma família que tinha banshee, diziam alguns narradores, ela podia vir de longe, mesmo de outro país, para chorar o parente.
Textos medievais associados à batalha de Clontarf, de 1014, citam Aoibheall, figura do povo feérico de Munster que teria previsto a morte de guerreiros. Alguns estudiosos veem nessa personagem um antecedente literário da banshee, embora a ligação seja discutida. Na Escócia, a bean-nighe é vista junto a um vau, lavando roupas de quem vai morrer. Ela não chora o morto como a banshee; a tradição a mostra em tarefa quase burocrática, que avisa mas não se compadece.
A banshee dá voz ao medo e ao luto. Em comunidades onde a morte era frequente e a lealdade à família, central, a figura transformava o lamento num sinal de pertencimento: ser chorado por um ser sobrenatural era, em alguns relatos, uma honra. Pesquisadores também a relacionam à antiga profissão das carpideiras e ao papel feminino no ritual da morte. Essas são leituras interpretativas; a crença se mantinha, antes de tudo, como experiência de medo e de respeito diante de um aviso.
O primeiro grande conjunto de relatos vem do século XIX: Thomas Crofton Croker, em Fairy Legends and Traditions of the South of Ireland (1825), e Lady Wilde, em Ancient Legends, Mystic Charms and Superstitions of Ireland (1887), reuniram histórias contadas por camponeses. Esses coletores escreviam em inglês e com gosto romântico, o que exige cautela. O estudo mais sólido é o de Patricia Lysaght, The Banshee: The Irish Supernatural Death-Messenger (1986), baseado em arquivos de folclore, entrevistas e fontes impressas.
Nas Terras Altas, a bean-nighe é vista lavando no riacho as roupas de quem morrerá em breve. Em algumas versões pode ser capturada e obrigada a revelar o destino ou a conceder desejos. A figura é parente da banshee, mas tem histórias e atributos próprios.
Os relatos irlandeses oscilam entre a mulher idosa de cabelos brancos e a jovem de beleza melancólica. Essa dupla imagem pode refletir tanto a diversidade das narrativas locais quanto a influência da literatura do século XIX.
Em Gales há uma figura de função semelhante, a gwrach y rhibyn, ouvida à noite e associada à morte iminente. Folcloristas comparam as duas, mas tratam-nas como tradições distintas.
Pesquisas contemporâneas observam que a crença na banshee sobreviveu às mudanças do campo irlandês e que ainda se contam experiências pessoais com o lamento, em geral atribuídas a parentes ou vizinhos. Para a antropologia e o folclore, essas narrativas são formas de elaborar o luto e de afirmar laços de família e de lugar, sem que seja necessário decidir se o evento sobrenatural ocorreu.
A banshee aparece em histórias em quadrinhos e séries como figura de grito agudo. A Marvel tem o herói irlandês Banshee, da equipe X-Men, e a série Teen Wolf usa o termo para uma personagem que pressente mortes. Mais perto da tradição, o filme The Banshees of Inisherin (2022), de Martin McDonagh, usa uma velha do vilarejo que anuncia desgraças como eco simbólico dessa figura.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Pequeno ser solitário do folclore irlandês, retratado como sapateiro matreiro que guarda um tesouro e escapa de quem o captura.
Fantasma de uma mulher que chora à beira da água à procura dos filhos que matou, figura central do folclore mexicano e hispano-americano e usada para alertar crianças.
Nas crenças eslavas orientais, a rusalka é o espírito de uma jovem morta de modo violento ou antes do tempo, associada a rios, lagos e campos, que volta à terra na semana das rusálias.
Mulher-fada da França medieval que casa com um nobre sob a condição de que ele nunca a veja aos sábados. Quando a promessa se rompe, revela a metade serpente e parte.
Mais da tradição Gaélica (Irlanda e Escócia): Aos sí, Kelpie, Leprechaun.
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