Selkie
Seres do mar que, nas tradições das ilhas do norte, vivem como focas e ganham forma humana ao tirar a pele, num ciclo de amor, captura e perda.
Também conhecido como: Cavalo-d’água, Water-kelpie, Each-uisge (parente das Terras Altas)
Espírito aquático escocês em forma de cavalo, que atrai viajantes ao dorso, prende-os e os arrasta para as águas. Só um arreio especial o domina. (pronúncia aproximada: kél-pi)
O kelpie é o espírito aquático escocês em forma de cavalo, associado a rios, lagos e pântanos. A origem da palavra é incerta: houve tentativas de relacioná-la a termos gaélicos que designam potro ou novilha, sem consenso entre os lexicógrafos. A figura pertence a um grupo mais amplo de cavalos aquáticos do norte da Europa, que inclui o nykur da Islândia e o bäckahäst sueco, mas cada tradição tem características próprias e não convém tratá-las como simples variantes.
Os autores que escreveram sobre o folclore das Terras Altas costumam distinguir o kelpie do each-uisge, mais temido e associado a lagos e ao mar. Distinções assim, porém, vêm em boa parte de coletores como John Gregorson Campbell, e a tradição oral nem sempre as mantinha nítidas. Em muitos lugares um mesmo relato usa os dois nomes.
O kelpie aparece como um belo cavalo, em geral negro ou cinzento, de crina e cauda sempre pingando. Sozinho junto a um rio ou lago, parece um animal perdido e convida o viajante a montar. Em algumas versões toma forma humana, de jovem elegante ou de mulher, mas conserva o rastro de água, algas ou cascos. O traço que o revela é a umidade.
O enredo típico é o da armadilha. O viajante cansado ou a criança curiosa monta o cavalo, e a pele de ambos fica presa, de modo que não consegue desmontar. O kelpie mergulha na água, e o cavaleiro é afogado e, nas versões mais sombrias, devorado, restando fígado ou alguma parte do corpo na margem. As histórias servem a um aviso concreto sobre os perigos de rios cheios e lagos fundos para crianças e viajantes.
A tradição também diz que o kelpie pode ser dominado com um freio ou arreio especial, ou com o cabresto de um cavalo comum, que lhe tira a força e o faz trabalhar. Num relato muito citado, o kelpie é forçado a carregar pedras para a construção do castelo de Morphie, em Kincardineshire; ao ficar livre, amaldiçoa a casa dos Graham, e o lugar, segundo a lenda, nunca prosperou. O conto é registrado em compilações como a de Katharine Briggs.
O kelpie é lido como personificação do perigo da água. Os rios escoceses sobem de repente e as turfeiras escondem poços fundos, e a imagem de um animal tentador, mas fatal, dava corpo ao conselho de nunca confiar em águas desconhecidas. Também se apontou que a figura traduz o desejo que arrasta ao risco, sobretudo no caso do kelpie que toma forma de jovem. Essas interpretações são modernas; para as comunidades, o kelpie era, antes de tudo, algo que podia ser encontrado.
O vocábulo é registrado no Etymological Dictionary of the Scottish Language, de John Jamieson (1808), e aparece em obras de Walter Scott. As principais coleções de relatos são as de John Gregorson Campbell, Superstitions of the Highlands and Islands of Scotland (1900) e Witchcraft and Second Sight in the Highlands and Islands of Scotland (1902), e as de Briggs no século XX. Boa parte do que se sabe vem de coletas dos séculos XIX e XX, feitas por letrados e muito depois da formação das crenças.
O each-uisge, “cavalo-d’água” em gaélico, é descrito como ainda mais perigoso: habita lagos e o mar, e quem o monta é arrastado para o fundo. Nas Terras Altas, é o parente mais temido do kelpie.
Em certos relatos, o kelpie toma forma de homem ou mulher bonita e seduz vítimas. Nessa versão, os sinais de reconhecimento são cabelos úmidos com ervas aquáticas e, às vezes, cascos em vez de pés.
Nas Órcades, o nuckelavee é um ser do mar de aspecto monstruoso, às vezes descrito como cavaleiro e cavalo fundidos. Folcloristas o aproximam dos cavalos aquáticos, mas ele tem história própria.
Na paisagem escocesa contemporânea, o kelpie virou símbolo regional. Em Falkirk, as esculturas The Kelpies, de Andy Scott, inauguradas em 2013, com cerca de trinta metros de altura, homenageiam os cavalos de trabalho que puxavam barcaças nos canais. Para o folclore, essa imagem mistura o espírito da água e o cavalo pesado, e é uma criação do nosso tempo.
O kelpie aparece em Fantastic Beasts and Where to Find Them (2001), de J. K. Rowling, como animal mágico metamorfo. O romance infantil The Water Horse (1990), de Dick King-Smith, e o filme The Water Horse: Legend of the Deep (2007) misturam o cavalo-d’água com a lenda do Lago Ness. São versões populares e mais amistosas do que o ser dos relatos coletados.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Seres do mar que, nas tradições das ilhas do norte, vivem como focas e ganham forma humana ao tirar a pele, num ciclo de amor, captura e perda.
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Nas crenças eslavas orientais, a rusalka é o espírito de uma jovem morta de modo violento ou antes do tempo, associada a rios, lagos e campos, que volta à terra na semana das rusálias.
Criatura aquática do folclore japonês, o kappa tem um prato com água na cabeça, gosta de pepinos e de lutar sumô, e é acusado de afogar pessoas e animais.
Mulher-fada da França medieval que casa com um nobre sob a condição de que ele nunca a veja aos sábados. Quando a promessa se rompe, revela a metade serpente e parte.
Mais da tradição Gaélica (Irlanda e Escócia): Aos sí, Banshee, Leprechaun.
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