Aos sí
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Também conhecido como: Leipreachán, Luchorpán, Clurichaun
Pequeno ser solitário do folclore irlandês, retratado como sapateiro matreiro que guarda um tesouro e escapa de quem o captura. (pronúncia aproximada: lépre-con)
O leprechaun é uma figura do folclore irlandês, e o nome vem de leipreachán, forma moderna ligada ao irlandês antigo luchorpán, “corpo pequeno”. Essa etimologia é a mais citada, mas os especialistas a tratam com a cautela devida a derivações populares. Os luchorpáin aparecem no conto medieval Echtra Fhergusa maic Léti (A Aventura de Fergus mac Léti), em que o rei, adormecido na praia, é arrastado por três deles para o mar. Ao serem capturados, concedem-lhe desejos em troca de sua liberdade.
A imagem do sapateiro solitário, com ouro escondido, é mais tardia e aparece nas coletas dos séculos XVIII e XIX. Os autores da época o descrevem como ser que vive isolado, ao contrário de outros povos feéricos que se movem em grupos e cortejos. Para o leitor atual, vale distinguir o personagem folclórico, de contornos instáveis e variáveis por região, do duende de postal e de propaganda.
Em Fairy Legends and Traditions of the South of Ireland (1825), Thomas Crofton Croker o descreve como um velho pequeno, de rosto enrugado, com chapéu de três pontas e avental de couro. Os relatos mais antigos o vestem de vermelho; o verde se firmou mais tarde, no século XIX, quando a cor passou a simbolizar a Irlanda em geral. Quem o encontra costuma ouvi-lo antes de vê-lo, pelo martelar com que conserta um único sapato.
O enredo típico é de captura e logro. Um camponês ouve o martelo, aproxima-se sem fazer barulho, agarra o sapateiro e o obriga a revelar onde guarda o ouro. O leprechaun leva o homem até um campo, indica a planta sob a qual o tesouro estaria enterrado e, enquanto o camponês marca o lugar, volta a atenção por um instante a outra coisa. É esse segundo de distração que basta para o ser desaparecer. Quando o homem volta com uma pá, o campo inteiro está cheio de plantas idênticas à marcada.
Em outras versões, o leprechaun guarda uma bolsa que sempre contém uma moeda, que retorna a ela depois de gasta. A tradição também diz que ele só pode ser retido enquanto o olhar do captor não se desvia. Há ainda relatos de recompensas: o ser cumpre a promessa quando tratado com cortesia ou quando é libertado, o que o torna menos vilão que trapaceiro.
O tesouro do leprechaun ecoa um dado concreto da paisagem irlandesa: depósitos de ouro e prata, de períodos antigos, eram encontrados em turfeiras e campos, e as histórias de ouro enterrado funcionavam como explicação desse achado. Também se interpreta a figura como lição sobre ganância e esperteza: quem tenta obter fortuna sem trabalho acaba enganado. Trata-se de interpretação moderna, sem apoio unânime. O que se pode dizer com segurança é que o conto de captura frustrada é um tipo muito popular e adaptável.
O conto de Fergus mac Léti, preservado em manuscritos medievais, é o registro mais antigo dos luchorpáin, ainda sem a figura do sapateiro. A descrição moderna se firma com Croker (1825), que reúne relatos do sul da Irlanda, e com W. B. Yeats em Fairy and Folk Tales of the Irish Peasantry (1888), obra que sistematizou o ser solitário e o separou de outros duendes. Ambos eram coletores do século XIX, escreviam em inglês e organizavam o material segundo categorias literárias, o que pesa na leitura.
Croker e Yeats descrevem um duende aparentado, o clurichaun, ligado às adegas e aos bêbados. Há dúvida entre os estudiosos se é uma criatura distinta ou o mesmo leprechaun em outra situação, como a de vigiar a bebida de uma casa.
Yeats registra ainda o far darrig, “homem vermelho”, apresentado como brincalhão cruel que apronta peças macabras. Aqui também o limite entre as categorias é do coletor, e não necessariamente do narrador.
No século XX, o leprechaun passou a ser mais personagem de livros e turismo do que de crença. Folcloristas observam que os relatos de encontro pessoal, comuns em outros seres feéricos, são raros para ele.
Pesquisadores como Diarmuid Ó Giolláin observam que a imagem do leprechaun foi moldada por coletores, ilustradores e pelo comércio turístico, e que a figura que circula hoje é em boa parte uma síntese posterior. A associação com o Dia de São Patrício (17 de março) e com o verde é um desenvolvimento ligado à identidade irlandesa na diáspora, sobretudo nos Estados Unidos.
O leprechaun virou personagem de cinema, com o filme da Disney Darby O’Gill and the Little People (1959) e a série de terror Leprechaun, iniciada em 1993 com Warwick Davis. Também é mascote do cereal Lucky Charms, criado nos Estados Unidos em 1964. São representações comerciais e humorísticas, longe do ser ambíguo e discreto dos relatos coletados.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Espírito doméstico das Terras Baixas escocesas e do norte da Inglaterra que realiza trabalhos à noite em troca de comida simples e vai embora se for ofendido.
Pequeno ser travesso do folclore da Cornualha e de Devon, que faz viajantes se perderem à noite e dança em círculos nos campos.
Ser travesso do folclore coreano, nascido muitas vezes de objetos velhos. Gosta de lutas e brincadeiras, prega peças e, com sorte, recompensa os humildes.
Figura feminina da tradição gaélica cujo lamento, ouvido à noite, anuncia a morte de alguém de uma família. Nas lendas, não mata: avisa e chora.
Mais da tradição Gaélica (Irlanda e Escócia): Aos sí, Banshee, Kelpie.
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