Fadaoa
Fadas e seres feéricos · Gaélica (Irlanda e Escócia)

Aos sí

Também conhecido como: Aos sídhe, Daoine sìth, O Bom Povo, A Gente dos Montículos

Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender. (pronúncia aproximada: ees shí (aproximado))

Tradição folclórica

Origem e contexto

Aos sí (em irlandês, também escrito aos sídhe) é o nome que a tradição gaélica dá a um povo sobrenatural que vive ao lado dos humanos, em geral sob colinas, túmulos antigos, fortes circulares de terra e outros pontos da paisagem. A palavra sídh designa ao mesmo tempo o montículo e o mundo que existe dentro dele, de modo que o termo une um lugar a seus habitantes. O equivalente escocês é daoine sìth.

A literatura irlandesa medieval oferece uma explicação de origem. Em textos como o Lebor Gabála Érenn (Livro das Invasões), compilado a partir do século XI, os Tuatha Dé Danann, povo divino que teria dominado a ilha, são vencidos pelos filhos de Míl e se retiram para os sídhe. Muitos estudiosos veem nisso a passagem de antigas divindades à condição de povo feérico, mas essa é uma leitura acadêmica, e a crença popular posterior nem sempre dependia dessas narrativas eruditas.

Na fala cotidiana evitava-se pronunciar o nome. Eram chamados de “o Bom Povo”, “os Nobres”, “a Outra Gente” ou “os Vizinhos”. Essas fórmulas de cautela mostram a relação que se mantinha com eles: não eram criaturas pitorescas, e sim vizinhos poderosos que convinha não ofender.

Aparência tradicional

Não existe um retrato único. Nos textos medievais irlandeses, os habitantes dos sídhe aparecem como figuras altas, belas e nobres, com um brilho quase divino. Na coleta oral dos séculos XIX e XX as descrições variam: gente de estatura humana ou menor, vestida de verde, vermelho ou cinza, que cavalga em cortejos e é vista de relance ao entardecer. A imagem de seres minúsculos e alados é em grande parte posterior e de origem literária inglesa, e não pertence ao núcleo da crença gaélica.

Comportamento nas lendas

Segundo a tradição, o aos sí leva uma vida paralela à dos humanos, com festas, música, disputas e um calendário próprio. As noites de passagem, sobretudo Samhain (31 de outubro) e Bealtaine (1.º de maio), eram tidas como momentos em que os sídhe se abriam e o contato se tornava mais provável. Quem se aventurasse por perto, ou comesse a comida oferecida lá dentro, arriscava ficar preso. Relatos de pessoas que dançaram numa colina e voltaram muito tempo depois, ou nunca voltaram, circulam por toda a Irlanda e a Escócia.

Conta-se também que o povo dos montículos raptava músicos, parteiras e mães recém-paridas, e que prejudicava quem lhe faltasse com o respeito. Em contrapartida, deixava em paz as famílias que observavam as regras: não cortar um espinheiro isolado, não construir sobre um caminho de passagem, não mexer em fortes circulares. Esses tabus, lembrados ainda hoje no meio rural irlandês, aparecem em coleções como a de Lady Gregory.

Simbolismo

Os estudiosos costumam interpretar o aos sí como uma forma de a comunidade conviver com a paisagem herdada. Os montículos eram túmulos e monumentos de eras anteriores, e a crença dava aos povos e antepassados de outrora um lugar vivo no território. A tradição também fixava regras de prudência e de reciprocidade, e dava nome ao inexplicável, como a morte súbita, o bebê que adoece ou a colheita que falha. Trata-se de uma interpretação moderna; quem contava essas histórias nem sempre as explicava assim.

Relatos históricos e fontes folclóricas

Entre os registros mais antigos estão os textos irlandeses medievais, como o Tochmarc Étaíne (O Cortejo de Étaín) e o Lebor Gabála Érenn, nos quais o sídh já é morada de seres sobrenaturais. Para a Escócia, destaca-se The Secret Commonwealth of Elves, Fauns and Fairies, escrito pelo pastor Robert Kirk em 1691 e publicado apenas em 1815. A grande coleta oral é mais tardia: Thomas Crofton Croker (1825), W. B. Yeats (1888) e Lady Gregory (1920) anotaram o que camponeses contavam nos séculos XIX e XX, quase sempre em inglês e filtrado pelo gosto literário dos coletores.

Variações regionais

Daoine sìth na Escócia

Na tradição escocesa, o mesmo tipo de povo é chamado daoine sìth. Kirk os descreve como uma sociedade paralela, com seus próprios costumes e líderes, e os relatos escoceses insistem na proteção do ferro e no cuidado de não pronunciar certos nomes.

Rainhas e reis locais

Cada região tinha seus soberanos feéricos. Em Munster, falava-se de Aoibheall, ligada ao rochedo de Craig Liath, no Condado de Clare, e de Clíodhna, associada a Cork; em Connacht, de Fionnbharr, que reinaria em Cnoc Meadha, em Galway.

Os fortes circulares

A Irlanda conserva dezenas de milhares de fortes circulares de terra, os raths ou lios, construídos em grande parte no início da Idade Média. Em muitas localidades, a crença de que pertenciam aos sídhe protegeu esses sítios do arado e da obra.

Interpretações modernas

Leituras de hoje

A partir do século XX, folcloristas como Dáithí Ó hÓgáin e narradores como Eddie Lenihan registraram e discutiram a persistência dessas crenças no campo irlandês. O assunto ganhou a imprensa em 1999, quando um espinheiro isolado em Latoon, no Condado de Clare, entrou no debate sobre o traçado de uma estrada. Parte do neopaganismo celta contemporâneo também retoma o aos sí em práticas devocionais, o que é uma reconstrução recente, e não continuidade de culto antigo.

Cultura popular

Representações contemporâneas

Na ficção moderna o termo “Sidhe” é usado com liberdade, em séries de fantasia urbana como The Dresden Files, de Jim Butcher, e em muitos jogos de interpretação de papéis. Esses usos costumam misturar a tradição gaélica com a imagem de elfos e fadas formada pela fantasia do século XX, e não devem ser lidos como retrato fiel da crença.

Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.

Criaturas relacionadas

Gaélica (Irlanda e Escócia)

Banshee

Figura feminina da tradição gaélica cujo lamento, ouvido à noite, anuncia a morte de alguém de uma família. Nas lendas, não mata: avisa e chora.

Espíritos e entidades
Gaélica (Irlanda e Escócia)

Leprechaun

Pequeno ser solitário do folclore irlandês, retratado como sapateiro matreiro que guarda um tesouro e escapa de quem o captura.

Fadas e seres feéricos
Escandinava e germânica

Álfar

Seres sobrenaturais da religião e do folclore nórdicos, ligados à fertilidade, aos ancestrais e ao poder de curar e de ferir, bem distintos dos elfos da fantasia moderna.

Fadas e seres feéricos
Britânica (Inglaterra, Escócia e ilhas)

Brownie

Espírito doméstico das Terras Baixas escocesas e do norte da Inglaterra que realiza trabalhos à noite em troca de comida simples e vai embora se for ofendido.

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Britânica (Inglaterra, Escócia e ilhas)

Changeling

Crença europeia de que o povo feérico trocava um bebê humano por um substituto. A tradição serviu para explicar doenças, deficiências e também para justificar violência.

Fadas e seres feéricos

Mais da tradição Gaélica (Irlanda e Escócia): Banshee, Kelpie, Leprechaun.

Para ler mais

  • Robert Kirk. The Secret Commonwealth of Elves, Fauns and Fairies. Escrito em 1691; publicado em 1815.
  • Lady Gregory. Visions and Beliefs in the West of Ireland. 1920.
  • Katharine Briggs. An Encyclopedia of Fairies, Hobgoblins, Brownies, Bogies, and Other Supernatural Creatures. Nova York: Pantheon Books, 1976.
  • Lizanne Henderson e Edward J. Cowan. Scottish Fairy Belief: A History. East Linton: Tuckwell Press, 2001.
  • Dáithí Ó hÓgáin. Myth, Legend and Romance: An Encyclopaedia of the Irish Folk Tradition. Londres: Ryan Publishing, 1990.

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