Fadaoa
Monstros e seres lendários · Coreana

Kumiho

Também conhecido como: Gumiho, Raposa de nove caudas coreana, 구미호, 九尾狐

Raposa de nove caudas dos contos coreanos, que assume forma de mulher bela para enganar e, em muitas versões, devorar homens. Algumas histórias lhe dão final trágico. (pronúncia aproximada: ku-mi-rrô)

Tradição folclórica

Origem e contexto

Kumiho (구미호) significa, em coreano, “raposa de nove caudas”. A figura pertence à família de espíritos-raposa do leste da Ásia e partilha com a tradição chinesa o motivo da raposa de nove caudas, já presente em textos como o Shanhaijing. A difusão desse motivo pela Coreia é antiga, mas datar com precisão a figura coreana específica é difícil: as narrativas conhecidas são, em sua maioria, contos orais registrados em coletâneas dos séculos XIX e XX.

No folclore coreano, o kumiho tende a ser mais ameaçador do que a raposa de outras tradições. Muitos contos descrevem uma raposa velha que vive em cemitérios ou montanhas, ganha forma humana e ataca viajantes e jovens. O contraste com a imagem de raposas tratadas com simpatia em partes da China ou com o papel de mensageira do Japão é parte do que dá ao kumiho um perfil próprio.

Aparência tradicional

Em forma humana, o kumiho costuma ser descrito como mulher de beleza fora do comum, que surge sozinha em lugares ermos ou à porta de uma casa à noite. As caudas, em número de nove, ficam ocultas e podem aparecer em momentos de descuido ou em clímax narrativo. Alguns relatos citam sinais que a denunciam, como o medo de cães ou algum traço do animal, mas esses indícios não são fixos e mudam de conto para conto.

Comportamento nas lendas

Em muitas versões, a raposa seduz homens para devorar seu fígado ou coração; algumas versões e releituras modernas falam de um número fixo de vítimas (cem ou mil, conforme a fonte) que a raposa precisaria consumir. Outro motivo é o do desejo de virar humana: segundo certas versões, o kumiho que se abstivesse de matar por mil dias conseguiria o que quer, mas a regra varia e as fontes divergem. Nos contos, em geral ela falha, o que serve de lição sobre os limites da natureza ou sobre o castigo.

Um motivo bem conhecido é o da pérola ou conta de raposa (yeou guseul). Em certas histórias o kumiho beija um rapaz para trocar uma conta que guarda na boca; ao engoli-la, o jovem passa a conhecer o céu e a terra, e a raposa fracassa. O tema reaparece em coletâneas de contos coreanos e é distinto dos relatos de devoração, o que mostra a variedade de papéis.

Simbolismo

Os contos de kumiho tratam da ambiguidade entre aparência e natureza e do medo do estranho que se apresenta como familiar. Pesquisadores observam que a raposa feminina carrega ansiedades sobre sexualidade e vínculos sociais, mas isso é leitura de estudiosos e não explicação dos narradores. Em outras histórias, a raposa aparece como alguém que deseja pertencer ao mundo humano e é impedida, o que lhe dá um tom melancólico.

Relatos históricos e fontes folclóricas

O registro é sobretudo oral e tardio. Coletâneas de contos coreanos, como as de Zong In-sob (Folk Tales from Korea, 1952) e Kim So-un (The Story Bag, 1955), em inglês, preservaram histórias de raposas, e a Encyclopedia of Korean Culture (Hanguk minjok munhwa daebaekgwa sajeon) traz entradas sobre a figura. Por isso é prudente tratar a imagem do kumiho como resultado de séculos de contação e de revisões modernas, e não como um corpo doutrinário fixo.

Variações regionais

A raposa devoradora

A versão mais conhecida: mulher bela que atrai homens para devorá-los, vive em cemitérios ou montanhas e é vencida por astúcia ou pela coragem de um herói.

A raposa que quer ser humana

Em outras histórias, o kumiho tenta alcançar a humanidade por meio de provações e abstinência. Quando fracassa, o final costuma ser trágico.

A conta da raposa

O tema da conta mágica na boca da raposa aparece em contos em que o jovem protagonista a engole e adquire saber, enquanto a raposa perde seu poder.

Interpretações modernas

Leituras de hoje

Estudos sobre folclore coreano apontam que a figura passou por uma reinterpretação ao longo do século XX, em especial no cinema e na televisão, que a aproximaram da tradição da femme fatale. Há também releituras que dão ao kumiho voz própria e o tratam como criatura sedutora e vulnerável. Essas são visões modernas e não pertencem às fontes orais mais antigas.

Cultura popular

Representações contemporâneas

O kumiho é presença frequente na televisão sul-coreana, com séries como My Girlfriend Is a Gumiho (SBS, 2010) e Tale of the Nine Tailed (tvN, 2020), que o transformam em protagonista romântico ou herói. A campeã Ahri, de League of Legends, também se inspira em espíritos-raposa do leste da Ásia. São representações populares, que se afastam bastante da ameaça dos contos.

Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.

Criaturas relacionadas

Chinesa

Huli jing

Raposa que, pela idade ou pela disciplina, ganha poderes e forma humana. Na literatura chinesa ela é amante, amiga, ameaça ou presságio, conforme a história.

Criaturas mágicas
Japonesa

Kitsune

Raposa dotada de poderes sobrenaturais no folclore japonês, a kitsune muda de forma, engana e seduz, mas também surge como mensageira da divindade Inari e esposa fiel em muitos relatos.

Criaturas mágicas
Coreana

Dokkaebi

Ser travesso do folclore coreano, nascido muitas vezes de objetos velhos. Gosta de lutas e brincadeiras, prega peças e, com sorte, recompensa os humildes.

Fadas e seres feéricos
Francesa medieval

Melusina

Mulher-fada da França medieval que casa com um nobre sob a condição de que ele nunca a veja aos sábados. Quando a promessa se rompe, revela a metade serpente e parte.

Espíritos e entidades

Compare com outras culturas

Mais da tradição Coreana: Dokkaebi.

Para ler mais

  • Zong In-sob. Folk Tales from Korea. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1952.
  • Kim So-un. The Story Bag: A Collection of Korean Folk Tales. Tóquio: Tuttle, 1955.
  • Huntington, Rania. Alien Kind: Foxes and Late Imperial Chinese Narrative. Cambridge (MA): Harvard University Asia Center, 2003.
  • Academy of Korean Studies. Hanguk minjok munhwa daebaekgwa sajeon (Encyclopedia of Korean Culture).

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