Fadaoa
Criaturas mágicas · Britânica (Inglaterra, Escócia e ilhas)

Selkie

Também conhecido como: Silkie, Selchie, Povo-foca, Roane

Seres do mar que, nas tradições das ilhas do norte, vivem como focas e ganham forma humana ao tirar a pele, num ciclo de amor, captura e perda. (pronúncia aproximada: sél-ki)

Tradição folclórica

Origem e contexto

Selkie é o nome que as ilhas do norte britânico, sobretudo Órcades e Shetland, dão a seres que são focas no mar e adquirem forma humana quando deixam a pele. A palavra deriva do escocês selch, “foca”. A figura pertence às comunidades costeiras, que dependiam da pesca, conviviam com as colônias de focas e tinham, com o mar, uma relação feita de ganho e de perda. É por isso que a tradição do selkie é pouco conhecida fora da faixa que vai das Órcades à costa ocidental irlandesa.

O ciclo mais difundido é o da selkie feminina. Um homem encontra mulheres dançando numa praia, ou uma jovem despida ao luar, rouba uma pele deixada nas pedras e, assim, a obriga a casar com ele. Ela vive com a família por anos, tem filhos, mas procura a pele escondida e, ao encontrá-la, volta para o mar. A mulher-foca aparece nas tradições de muitos países, como as Ilhas Faroe, o que dá à história um caráter regional mais amplo do que o das Órcades.

Aparência tradicional

Em forma de foca, o selkie é um animal comum, só reconhecido pelos olhos, que parecem humanos e tristes, e pelo comportamento diante de pessoas. Em forma humana, as mulheres são descritas como de grande beleza, de cabelos escuros e olhos grandes, e os homens como altos e atraentes, de mãos frias. A mudança depende sempre da pele: sem ela o selkie não volta ao mar, e quem a esconde detém a vontade de quem ela veste.

Comportamento nas lendas

Os relatos de selkie masculino são menos numerosos e mais perigosos. Neles, o homem-foca seduz mulheres, em geral casadas ou infelizes, que desejam o mar, e delas deixa filhos marcados, às vezes com mãos e pés palmados. Em algumas tradições, a mulher que quiser chamá-lo derrama sete lágrimas no mar. A balada The Great Silkie of Sule Skerry, incluída por Francis James Child na sua coletânea de baladas inglesas e escocesas (1882–98), conta de um selkie que informa à mulher que o filho nascido dela será um dia morto por um caçador.

Há ainda relatos nos quais a esposa foca é descoberta por seus filhos, que encontram a pele no escuro e a entregam à mãe, às vezes sem malícia, às vezes sem entender. A despedida costuma ser dolorosa. Nas narrativas, a esposa que parte continua a visitar o marido e os filhos em forma de foca, protegendo-os durante a pesca. A tradição também diz que matar uma foca podia atrair desgraça, pois ela poderia ser um parente.

Simbolismo

Os estudiosos leem o selkie como figura da fronteira entre terra e mar e do que não se pode possuir. Para comunidades costeiras, o mar dava e tirava a vida, e o selkie condensa esse vaivém. A versão da mulher aprisionada tem sido discutida por pesquisadores, que a veem como relato de casamento por captura, de ausência e de saudade. Essas leituras são modernas, e os narradores antigos raramente as formulavam.

Relatos históricos e fontes folclóricas

O material das Órcades e Shetland foi reunido em boa parte no século XIX e no início do XX, por exemplo por Walter Traill Dennison e Jessie Saxby, e depois por Ernest W. Marwick em The Folklore of Orkney and Shetland (1975). David MacRitchie, em Testimony of Tradition (1890), propôs que os selkies lembrariam povos de caiaques vistos de longe, a chamada teoria dos Finn-men, hoje muito contestada. A balada de Sule Skerry é anterior à coleta de Child, mas sua datação exata é incerta. Boa parte dos textos vem de coletores forasteiros.

Variações regionais

Kópakonan nas Ilhas Faroe

Na tradição faroesa, a Kópakonan, a “mulher-foca”, é a esposa de um homem de Mikladalur que lhe roubou a pele. Nesse conto, as focas seriam as almas de pessoas afogadas, que podem sair do mar em certa noite do ano.

Irlanda e Hébridas

Em partes da Irlanda e das Hébridas, famílias afirmavam descender de uma mulher-foca. Tais afirmações aparecem em coleções do século XIX, e seu valor como crença viva é incerto.

O selkie masculino

Em Orkney, o selkie masculino atrai mulheres com sua beleza e é visto como sedutor. Segundo algumas versões, o filho nascido dessa união traz um traço do mar.

Interpretações modernas

Leituras de hoje

O selkie atrai hoje interesse em estudos de gênero, ecologia e literatura. Autores contemporâneos o reinterpretam como figura de liberdade feminina ou de pertencimento a duas terras, e como lembrança do impacto humano sobre as focas e o litoral. Essas releituras são do nosso tempo, e a tradição coletada traz, sobretudo, a perspectiva de quem tinha a pele roubada pouco examinada.

Cultura popular

Representações contemporâneas

O filme The Secret of Roan Inish (1994), de John Sayles, baseado no romance de Rosalie K. Fry, e a animação irlandesa Song of the Sea (2014), do estúdio Cartoon Saloon, são exemplos conhecidos da figura. Ambos situam a história no litoral irlandês e usam o selkie como símbolo de família e de memória. São criações modernas inspiradas na tradição, não sua transcrição.

Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.

Criaturas relacionadas

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Compare com outras culturas

Mais da tradição Britânica (Inglaterra, Escócia e ilhas): Brownie, Changeling, Pixie.

Para ler mais

  • Ernest W. Marwick. The Folklore of Orkney and Shetland. Londres: Batsford, 1975.
  • Francis James Child. The English and Scottish Popular Ballads. Boston, 1882–1898.
  • David MacRitchie. Testimony of Tradition. Londres, 1890.
  • Katharine Briggs. An Encyclopedia of Fairies, Hobgoblins, Brownies, Bogies, and Other Supernatural Creatures. Nova York: Pantheon Books, 1976.
  • Lizanne Henderson e Edward J. Cowan. Scottish Fairy Belief: A History. East Linton: Tuckwell Press, 2001.

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