Aos sí
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Também conhecido como: Criança trocada, Wechselbalg (alemão), Skiptingr (nórdico antigo)
Crença europeia de que o povo feérico trocava um bebê humano por um substituto. A tradição serviu para explicar doenças, deficiências e também para justificar violência. (pronúncia aproximada: tchêinj-ling)
Changeling é o nome inglês da crença de que seres sobrenaturais trocavam uma criança humana, deixando em seu lugar um substituto. Esse substituto podia ser um ser feérico velho disfarçado de bebê, um pedaço de madeira enfeitiçado ou uma criatura que logo adoecia e definhava. A crença é conhecida em toda a Europa, com nomes como Wechselbalg, em alemão, e skiptingr, em nórdico antigo, e não se limita às Ilhas Britânicas.
No folclore britânico e irlandês, o rapto se explicava pela beleza do bebê, por uma falta de cuidado ou pela necessidade do povo feérico de recém-nascidos e de mães que amamentassem. As crianças ainda não batizadas eram consideradas as mais expostas. O assunto exige cautela por uma razão concreta: a crença foi usada, em diferentes épocas, para dar sentido a quadros de doença e deficiência, e acabou servindo de pretexto para maus-tratos.
O changeling aparece, nos relatos, como uma criança que se transformou de um dia para o outro: antes saudável, passa a ser descrita como fraca, esfomeada, chorona, de aparência envelhecida ou de olhar que parece de adulto. Os pais reconhecem a mudança por sinais físicos e de comportamento, e é aí que a crença se aproxima de situações reais de saúde. O adulto trocado, nas histórias, é a pessoa que volta de um aparente raptado com comportamento estranho ou passa a viver como se estivesse ausente.
Segundo a tradição, o changeling podia ser desmascarado por meio de testes. Um deles, registrado por Thomas Crofton Croker em Fairy Legends and Traditions of the South of Ireland (1825), consistia em preparar uma refeição em cascas de ovo diante dele; o ser, surpreso, exclamava que já tinha visto muito, mas nunca isso, e com isso se revelava velho. A partir daí, em certos relatos, ele era forçado a ir embora, e a criança verdadeira era devolvida.
Os métodos de proteção eram mais pacíficos: ferro ou uma tesoura sob o berço, o batismo rápido, uma Bíblia ou sinal da cruz, roupas do pai sobre o bebê. A tradição também diz que o ser trocado não suporta o fogo ou o ferro, e dessa ideia derivam as formas violentas de teste, como colocar a criança no fogo ou mergulhá-la em água, que causaram mortes documentadas. Esses são, antes de tudo, fatos históricos, e não só lendas.
Os estudiosos veem no changeling uma explicação social para o inexplicável: uma criança que não se desenvolve, uma doença que se arrasta, um temperamento que preocupa. Atribuir a mudança a um raptor externo livrava a família da culpa e transformava a angústia em ação. Susan Schoon Eberly, em estudo sobre deficiência e folclore, observa que a crença também funcionava como pressão sobre crianças com condições que a comunidade não sabia tratar. Essa leitura é interpretativa, mas convergente entre os pesquisadores.
A crença é atestada em textos desde a Idade Média e em coleções do século XIX, como as de Croker e de Edwin Sidney Hartland, em The Science of Fairy Tales (1891), que comparou versões europeias. O caso de Bridget Cleary, de 1895, é o mais documentado: ela foi morta pelo marido, Michael Cleary, que acreditava que a mulher doente fora trocada por um ser feérico. Angela Bourke estudou o episódio com base em processos judiciais e jornais, e outros casos fatais foram julgados na Irlanda do século XIX.
Em parte dos relatos irlandeses, a troca atinge adultos, em especial mulheres após o parto ou pessoas que se afastam do comportamento esperado. O caso Cleary se insere nessa lógica, embora os motivos reais do crime sejam debatidos pelos historiadores.
Na tradição escandinava, é frequente que a troca seja atribuída a trolls ou a seres subterrâneos, e as precauções também envolvem aço e orações.
Na literatura, a figura foi usada por Shakespeare em Sonho de uma Noite de Verão (c. 1595), onde um menino trocado é disputado entre Oberon e Titânia, e por W. B. Yeats no poema The Stolen Child (publicado em 1886 e reunido em livro em 1889).
Pesquisas contemporâneas leem a crença como um recurso cultural para lidar com a doença infantil, a mortalidade alta e a pobreza. Angela Bourke mostra que o caso Cleary só é compreensível se unirmos o contexto rural do condado de Tipperary, as tensões domésticas e as histórias de fadas. Para estudiosos da deficiência, o changeling é também um exemplo de como a cultura popular estigmatizou diferenças que hoje a medicina explica.
O tema reaparece em obras de fantasia como o jogo de interpretação de papéis Changeling: The Dreaming (1995), da White Wolf, e em romances e filmes de horror e de suspense. Esses usos tomam a premissa da criança trocada e a tratam com liberdade, quase sempre sem a gravidade dos casos históricos, e não devem ser lidos como tradição.
Representações populares são criações de autores e estúdios e não devem ser confundidas com a tradição que originou o ser.
Povo sobrenatural da tradição gaélica que habita montículos, fortes antigos e colinas, vizinho poderoso dos humanos, que convém respeitar e nunca ofender.
Espírito doméstico das Terras Baixas escocesas e do norte da Inglaterra que realiza trabalhos à noite em troca de comida simples e vai embora se for ofendido.
Pequeno ser travesso do folclore da Cornualha e de Devon, que faz viajantes se perderem à noite e dança em círculos nos campos.
Nas tradições escandinavas, trolls são seres ligados a montanhas, grutas e florestas, de contornos variáveis: de gigantes brutos a povos escondidos nas colinas.
Seres sobrenaturais da religião e do folclore nórdicos, ligados à fertilidade, aos ancestrais e ao poder de curar e de ferir, bem distintos dos elfos da fantasia moderna.
Mais da tradição Britânica (Inglaterra, Escócia e ilhas): Brownie, Pixie, Selkie.
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